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Transplante de Coração
Dr.
Jarbas J. Dinkhuysen O transplante cardíaco
é uma técnica cirúrgica que implanta um
coração saudável para substuir ou auxiliar
o coração doente. O primeiro transplante cardíaco
humano foi realizado em dezembro de 1967 pelo Dr. Chistiaan
Barnard na África do Sul. No início, essas operações
usualmente não obtinham sucesso, devido à rejeição
ao órgão implantado.
Hoje, com novos conhecimentos de como funciona a imunologia e a
aplicação de medicamentos potentes contra a rejeição,
a sobrevida dos transplantados tem melhorado significativamente.
Cerca de 2.300 americanos, em mais de 150 centros
especializados, recebem transplante cardíaco a cada ano.
No Brasil, existem 24 centros e aproximadamente 100
pacientes/ano são transplantados.
Como é feito o transplante de coração?
Existem duas técnicas cirúgicas:
- Transplante ortotópico: um coração
doente é removido e em seu lugar é implantado
um órgão saudável retirado de um
doador.
- Transplante heterotópico: o coração
do doador é implantado sobre o órgão
nativo com a finalidade de ajudar o bombeamento do sangue.
Concluída a operação, o paciente terá
dois corações: o seu doente e o do doador saudável.
Essa técnica é utilizada em situações
em que o coração danificado não pode
ser removido, por exemplo, quando a pressão do sangue
nas artérias dos pulmões é anormalmente
elevada e não mostra tendência de queda aos níveis
normais. Nesse caso, o transplante convencional (ortotópico)
não terá sucesso, pois o coração
do doador não está preparado para enfrentar
essa pressão elevada Após implantado, o coração
é denervado, não tendo conexão com o
sistema nervoso do organismo. Isso acontece porque o cirurgião
que realiza o transplante não tem condições
de fazer essas conexões nervosas que são de
dimensão microscópica.
Quando é indicado o transplante de coração?
É indicado quando as medidas clínicas e cirúrgicas
no tratamento de insuficiência cardíaca foram
esgotadas e a expectativa de vida do paciente não
ultrapasse de 6 meses a 2 anos.
A insuficiência cardíaca congestiva é
quando o coração não consegue bombear
sangue suficiente para atender às necessidades dos órgãos
e dos tecidos do organismo. Em certas ocasiões, esse
estado pode ser agravado por arritmias cardíacas.
Estima-se que mais de 40.000 americanos faleçam por
ano de insuficiência cardíaca e que pelo menos
4,8 milhões de pessoas sejam portadores dessa afecção.
Muitas pesquisas já foram e estão sendo
desenvolvidas para descobrir as causas da insuficiência
cardíaca, assim como os avanços no tratamento
medicamentoso e cirúrgico estão se consolidando.
Os pacientes candidatos a transplante geralmente podem ser
divididos em dois grupos:
- com danos irreversíveis causados pela doença
das coronárias sob forma de múltiplos ataques
cardíacos.
- com a doença do músculo propriamente dito
(cardiomiopatia).
Em ambas condições o coração
perde seu vigor contrátil. Ocasionalmente, podem
ocorrer outras maneiras de comprometer a função
cardíaca: anormalidades adquiridas ou congênitas
das válvulas ou de outras estruturas do coração
e mesmo condições raras como a presença
de tumores no coração.
Qualquer pessoa pode se submeter a um transplante do
coração?
Até recentemente os efeitos colaterais da medicação
contra rejeição evitavam que as crianças
e as pessoas mais idosas pudessem ser operadas. Atualmente,
desde recém-nascidos até idosos com mais de 70
anos são aceitos como receptores.
As chances de sobrevida longa dependem em parte do estado
dos outros órgãos, principalmente cérebro,
pulmões, fígado e rins. Os pacientes que
apresentam problemas nesses órgãos podem não
se beneficiar do transplante.
Outros problemas médicos devem ser considerados
quando se analisa os candidatos tais como evidências de
infecção ativa de qualquer natureza, diabetes,
embolia pulmonar, doenças degenerativas e tumores.
Um aspecto decisivo para o sucesso do tratamento é o
estado psicológico do paciente que deve cooperar com a
orientação médica e ao mesmo tempo ter
amparo familiar consistente.
Quais são as complicações de um
transplante de coração?
As complicações mais comuns que aparecem ou é
a rejeição ao órgão transplantado
ou a infecção. É necessário muito
cuidado para evitar essas intercorrências.
Eventualmente, após os primeiros anos do transplante,
podem ocorrer obstruções nas artérias
coronárias.
Por que acontece a rejeição do coração
transplantado?
Porque o sistema imunológico do organismo por meio
dos glóbulos brancos reconhece "substâncias"
estranhas e reage contra a sua presença. Após um
ferimento no dedo de uma pessoa, por exemplo, as bactérias
que entram no organismo são combatidas pelos glóbulos
brancos que as destroem e evitam a infecção.
Este é o mecanismo normal.
Resposta semelhante ocorre a um coração após
seu transplante de uma pessoa para outra. O órgão
acaba sendo atacado pelo sistema imunológico do
paciente receptor.
Quando os transplantes iniciaram, a ciência médica
ainda não entendia que o sistema imunológico via
o novo coração como um corpo estranho ao
organismo e o atacava.
Atualmente, devido a incorporação de novos
conhecimentos de como funciona a imunologia, associada a
aplicação de medicamentos potentes contra a
rejeição, a sobrevida dos transplantados tem
melhorado significativamente.
Como saber se o organismo está rejeitando o coração
transplantado?
A rejeição pode causar febre, fraqueza e
batimento cardíaco rápido ou algum outro tipo de
anormalidade no ritmo cardíaco. Quando fraca pode não
causar sintomas mas o eletrocardiograma pode mostrar alterações
sugestivas. Se o médico suspeitar de rejeição,
o paciente é submetido à biópsia do coração.
Um fragmento do músculo cardíaco é
retirado e microscopicamente analisado para encontrar ou não
sinais de inflamatória compatíveis com rejeição.
Como evitar a rejeição de órgãos?
A rejeição do coração é
evitada usando os medicamentos imunossupressores que inativam
os glóbulos brancos para que não ataquem o coração
transplantado. Se mesmo tomando esses remédios for
constatada a rejeição do coração,
a dosagem da medicação imunossupressora é
aumentada e, muitas vezes, é necessária a
internação do paciente.
Os remédios que combatem a rejeição
podem apresentar efeitos colaterais diversos como aumentar o
peso e a taxa de açúcar no sangue, afetar o
funcionamento dos rins e do fígado, aumentar a pressão
arterial etc. Quando se observam efeitos colaterais, a dosagem
da medicação imunossupressora é
rebalanceada, obtendo-se sempre bons resultados.
É necessário chamar a atenção
para a interação medicamentosa (quando o
paciente toma mais de um remédio) que pode alterar os
efeitos dos remédios e até mesmo inativar alguns
deles. Por isso, quando um transplantado necessitar tomar
alguma medicação diferente, é necessário
consultar seu médico assistente para verificar se é
possível ou não utilizar o medicamento.
Por que é grande a chance de ocorrer infecção?
A infecção é outro grande fantasma nos
pacientes transplantados. Os mesmos glóbulos brancos
que atacam o coração transplantado são
responsáveis pela remoção de partículas
estranhas ao organismo (bactérias). Quando eles são
inativados pelos medicamentos imunossupressores para que não
ataquem o coração, as bactérias patogênicas
não são removidas sobrevindo a infecção.
Por isso que, ao elevar a dose desses medicamentos, aumenta a
possibilidade da ocorrência de infecção.
Portanto, o paciente não deve se expor a situações
em que existam chances de apanhar uma infecção
como, por exemplo, ficar junto de uma pessoa com gripe forte.
Qual o perigo da obstrução das artérias
coronárias?
A possibilidade de ocorrência de obstruções
nas artérias coronárias do coração
transplantado não é acompanhado dos sintomas
habituais, ou seja, angina (dor) no peito, visto que o órgão
foi denervado. Por essa razão, é necessário
que o paciente submeta-se a cateterismo cardíaco
(coronariografia) pelo menos a cada dois anos. Havendo persistência
desse problema, cogita-se a possibilidade de um novo
transplante (retransplante).
Quanto tempo o transplantado pode sobreviver?
Em média, a sobrevida em 1 ano é de 85% e ao
final de 3 anos é de 78%. Contudo, existem pacientes
vivos há mais de 20 anos após o transplante.
A qualidade de vida dos pacientes mostra dramáticas
melhoras pois recuperam a capacidade física, voltam a
trabalhar e mesmo a praticar esportes.
Quais são os cuidados a serem tomados após
o transplante cardíaco?
Ao ser completada a operação com êxito,
espera-se melhoras na expectativa de vida. Contudo, serão
necessários cuidados com o órgão
implantado, principalmente em sempre tomar a medicação
conforme foi prescrito, e acostumar-se com os efeitos
colaterais, caso apareçam. Outro aspecto importante é
não se expor a situações em que existe
possibilidade de contrair uma infecção, como
visitar uma pessoa gripada, ingerir algum tipo de alimento que
possa estar contaminado e assim por diante. Ressalta-se que os
batimentos cardíacos costumam ser mais rápidos
do que em uma pessoa normal que, em repouso, apresenta entre
60 a 80 batimentos/minuto, enquanto no transplantado podem
estar ao redor de 130 batimentos/minuto.
Como se candidatar para receber um coração?
No Estado de São Paulo, existe a Central de Procura
de Órgãos da Secretária de Saúde
do Governo do Estado que centraliza a lista única dos
receptores cadastrados pelas diferentes equipes
transplantadoras. Quando surge notificação de um
paciente em coma irreversível, o computador da Central
analisa a compatibilidade de peso corporal e tipo sangüíneo,
seleciona o receptor mais antigo previamente inscrito e avisa
a equipe respectiva para realizar a operação.
Pacientes com quadros clínicos mais graves, internados
em UTI, fazendo uso de medicação endovenosa,
recebem prioridade na relação de receptores.
Quem pode doar o órgão?
A opção de uma pessoa tornar-se doadora de órgãos
deve constar em seu documento de identidade e a família
deve concordar explicitamente com a doação. Não
existe limite para idade do doador. É necessário
que sejam excluídos aqueles portadores de estados
infecciosos atuais ou antigos como hepatite B, C, AIDS e
outros que formalmente contra-indicam a doação,
sob pena de repassá-los a quem receber o órgão.
O doador poderá estar no mesmo hospital ou à
distância, na mesma região ou em outro estado.
Por isso, é necessário o estabelecimento de logística
de busca, sempre levando em conta que o coração
resiste até 4 horas sem funcionar. Esse tempo deverá
incluir a retirada cirúrgica do órgão,
seu acondicionamento em recipiente específico,
transporte terrestre ou aéreo até o hospital do
doador e, finalmente, o implante cirúrgico do órgão
no receptor.
Não podem ocorrer falhas, tudo deve ser previsto!
Como ter certeza que o doador está morto e seus órgãos
podem ser retirados?
A morte é um processo dinâmico que leva algum
tempo para se completar, ou seja, do ponto de vista biológico,
ela não é instantânea.
O corpo humano é formado por inúmeros tecidos
orgânicos diferentes. Por exemplo, o tecido mais sensível
e que não suporta mais do que poucos minutos a ausência
de circulação de sangue é o cérebro
enquanto que a pele e seus componentes resistem a muitas horas
sem circulação sangüínea, a ponto de
se observar o crescimento dos pelos e unhas após o
falecimento.
Quando alguém sofre um trauma na cabeça ou um
derrame que comprometa o chamado tronco encefálico,
configura-se o coma encefálico profundo e irreversível.
Nessas condições, esse indivíduo é
considerado cadáver, apesar de o restante do organismo
funcionar bem.
Somente nessa condição de coma encefálico
é que órgãos de uma pessoa podem ser
retirados, com a devida autorização de seus
familiares.

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