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Casa de Parto
Dr. José
Aristodemo Pinotti *
Tive, há trinta anos atrás, a oportunidade de
apresentar Roberto Caldeyro-Barcia a José Galba de Araújo.
Caldeyro, em um pequeno laboratório de Montevidéu,
revolucionou o conhecimento dos mecanismos de parto e do bem
estar fetal "in útero", modernizando a
Obstetrícia. Há uma Obstetrícia antes e
outra depois de Caldeyro. Galba de Araújo, cearense,
que fez especialização nos Estados Unidos e
casou-se com Lorena, enfermeira americana, veio para Fortaleza
dirigir a Maternidade Assis Chateubriand e redescobriu as
parteiras práticas do interior do Ceará,
integrando-as com essa maternidade e criando um modelo de
hierarquização de ações e de
delegação de funções que deu ao
seu Estado a primazia na organização dos
sistemas de saúde.
Através de procedimentos de pesquisas diferentes,
Caldeyro (pela fisiologia) e Galba (pela análise de práticas
antropológicas) chegaram à mesma conclusão:
o parto natural é uma passagem necessária para
obtenção de recém-nascidos sadios e práticas
tradicionais, como a posição vertical para
parturir, amamentação imediata e a participação
da família são preciosas para obter-se os
melhores resultados no atendimento obstétrico.
Ambos pesquisadores, inseridos no mundo da ciência,
sabiam entretanto que, apesar das vantagens do parto natural,
em 15 a 20% dos casos há necessidade de intervenções
diagnósticas e terapêuticas, cirúrgicas ou
clínicas, muitas de emergência, porque as
intercorrências durante o processo de parturição
são quase imprevisíveis e demandam, quando
ocorrem, tecnologia instalada em bons hospitais, com
especialistas treinados que atuem, com rapidez e eficiência,
para salvar a vida da mãe e da criança através
de práticas como: transfusões, cesáreas,
monitorizações, UTIs, medicações e
equipamentos especiais, apenas disponíveis em hospitais
e algumas vezes, somente em centros de referência de
maior porte. Esses avanços diminuíram
drasticamente a mortalidade no parto, a partir do começo
deste século.
Com essas descobertas e com o bom senso para interpretá-los,
sem ceder à tentação de modismos fáceis,
nasceu a obstetrícia moderna da segunda metade deste século,
que pressupõe a integração das duas
necessidades: parto natural ao lado da família
acompanhado todo o tempo por enfermeira obstétrica
treinada porém, dentro do hospital. É uma solução
de compromisso que une: respeito à fisiologia, à
cultura e à antropologia com acesso à tecnologia
de ponta, quando necessário. É dessa forma,
inteligente e informada, que se constrói a modernidade.
Essa combinação já existe em muitas
maternidades americanas e européias pois, sabemos que
um descolamento prematuro de placenta, uma placenta prévia
central, um sofrimento fetal agudo, prolapso de cordão
ou um recém nascido gravemente deprimido, se não
forem atendidos imediatamente, com a tecnologia e
profissionais especializados, podem levar à perda da
vida da mãe e da criança.
Foi nesse contexto que fiquei perplexo, ao ver a enorme
relevância que vem sendo dada à experiência
das "Casas de Parto" na cidade de São Paulo.
Não posso me colocar - pois minha história de
vida não permite - contra uma livre opção
das mulheres que desejarem esse tipo de assistência porém,
também não posso furtar-me à obrigação
de sugerir que esses fatos sejam informados pois, essa
proposta, a meu ver, além de desnecessária, é
perigosa. Desnecessária porque nesta cidade não
faltam leitos hospitalares para Obstetrícia, o que
falta é organização da assistência
ao pré-natal e ao parto, hospitais de referência
para casos complexos, berçário de alto risco,
parteiras e preparação de ambientes apropriados
e familiares dentro das maternidades. Perigosa, porque uma
emergência ocorrida nesse local pode significar um maior
risco de morte da criança ou da parturiente. O pré-natal
deve estar na periferia, próximo à casa da
gestante com trabalhadores de saúde não médicos,
treinados e supervisionados por médicos, atendendo o pré-natal
de baixo risco, aumentando o número e a qualidade das
consultas. Às obstetrizes deve-se dar a incumbência
de acompanhar partos em hospitais. Isso tudo não só
é aceitável, como desejável, pois melhora
a atenção e os resultados e já deveria
ter sido feito, há muito tempo. Sempre fui favorável
e pratiquei a descentralização e a delegação
de funções como soluções para o
problema da qualidade, abrangência e universalidade dos
atos médicos. Entretanto, existe todo um conjunto de
conhecimentos, práticas e riscos que precisam ser
avaliados quando se toma uma decisão pois a generalização,
o exagero, o amadorismo e o modismo podem ser nefastos.
Casa de Parto tem sentido no interior do Ceará, para
atender gestantes de baixo risco, onde não existem
leitos hospitalares e assim mesmo, Galba de Araújo
tinha veículos velozes para levar os casos complicados
para a Maternidade e não eram poucos os que, antes de
Galba, ficavam nas dunas, esvaindo-se em sangue ou em febre.
Um dos importantes avanços introduzidos foi trazê-los
antes para a maternidade, onde as parteiras, junto com suas
parturientes, eram recebidas e integradas na assistência
ao parto intra-hospitalar. A Casa de Parto na cidade de São
Paulo, onde há leitos ociosos, onde as maternidades são
próximas, é uma prática desvinculada do
bom senso. A meu ver, está sendo usada para economizar
recursos e atrair a imprensa usando o legítimo direito
de escolha das mulheres, para enganá-las.
Infelizmente, é essa a saúde brasileira. Ela
está sendo constituída de penduricalhos pirotécnicos
como a campanha do papanicolaou, colecistectomia ou o sorteio
de casos para cirurgias de hérnias e agora, as Casas de
Parto. Dessa forma, vai se compondo, como uma verdadeira
colcha de retalhos, ineficiente e cara, um anti-sistema de saúde
improdutivo, ineficiente e desumano. Não será
assim que se vai controlar a mortalidade materna em São
Paulo que, não só, tem taxas altíssimas,
como teve um aumento vergonhoso, de 24%, nestes últimos
5 anos.
É justo e ético dar as mulheres o direito de
decidir mas, é preciso informá-las e
oferecer-lhes, sempre, as melhores opções.
* José Aristodemo Pinotti é
Professor Titular e Chefe do Departamento de Obstetrícia
e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP, ex-Reitor da
Unicamp, ex-Secretário da Educação,
ex-Secretário da Saúde de São Paulo,
ex-Deputado Federal.
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